segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O épico discurso de Mujica na Assembléia da ONU

O ÉPICO DISCURSO DE MUJICA NA ASSEMBLÉIA DA ONU. 
Presidente do Uruguai - José Mujica


Assembléia da ONU - Discurso do Presidente do Uruguai - José Mujica.

25 de setembro de 2013 às 12h39m

O épico discurso de Mujica na Assembléia da ONU: “Sim, é possível uma humanidade melhor”.

Tire 40 e poucos minutos do seu tempo para ouvir o inspirador discurso do presidente uruguaio na ONU. 
Um monte de coisa que todo mundo já sabe, mas dita com uma clareza rara no cenário político internacional. 
Sem rodeios, sem trololó.
A transcrição do discurso (feita pelo jornal uruguaio República) segue abaixo. 
Tradução feita por Fernanda Grabauska para a Zero Hora, a saber:

Discurso na íntegra, clique no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=OLef1zl7k4Q


Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos.

Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.

O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse anti-valor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.

Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.

O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.

Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.

Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.

Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.

Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.

O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.

Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísmo, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.

Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.

Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fóruns e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…

Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requereriam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.

Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.

Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegando a nossos limites biológicos.

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A cobiça, tão negativa e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.

Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.

Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.

Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.

Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.

Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.

Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.

Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.

Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.

Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.

A ONU, nossa ONU, enlanguesce, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.

Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.

Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.

Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.

Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.

O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.

Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.

Obrigado.
________________________________
_____________________
_________

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

História das eleições - As fases no Brasil

HISTÓRIA DAS ELEIÇÕES.
AS FASES NO BRASIL.
Desembarque de Pedro Álvares Cabral 
Porto Seguro -  
Bahia, em 22 de abril de 1500
Dom Pedro I (que estava em viagem) 
declarou a independência do país 
no dia 7 de setembro de 1822, 
às margens do rio Ipiranga.
___________________________

História das eleições

As fases no Brasil


Bandeira Imperial do Brasil 
- vigorou de 1822 a 1889 -

Bandeira Nacional do Brasil
Brasão da República Federativa do Brasil 
- 15 de Novembro de 1889 -
_________________________________________
_________________________________

1ª Fase - 1823 a 1937

Constituinte tenta manter sistema em que direito de eleger e ser eleito é determinado pelas posses em farinha de mandioca, em vigor no Brasil Colônia. Mulheres e escravos não votam.

Dom Pedro I
1824 - D. Pedro I dissolve a Assembléia e impõe carta que determina renda mínima de 100 réis para votar, e outros tetos para concorrer a cargos eletivos.

1842 - Foi proibido o voto por procuração e, quatro anos depois estabeleceu-se uma data simultânea para eleições provinciais e municipais.

1855 - É criado o voto distrital por meio da chamada Lei dos Círculos. A reação da classe política foi tão negativa que sofreu a revogação após as eleições.

1875 - Criado o primeiro título de eleitor.

1881 - Através da chamada Lei Saraiva são estabelecidos as eleições diretas e o voto secreto.

Marechal Manuel Deodoro da Fonseca
1889 - O Marechal Manuel Deodoro da Fonseca lidera uma revolta militar, que teve como desfecho a renúncia de D. Pedro II e a proclamação da República. Deodoro separa a igreja do Estado e promove outras reformas republicanas.
- A redação de uma Constituição foi completada em junho de 1890 e entrou em vigor em fevereiro de 1891, transformando o Brasil em uma República Federal, oficialmente chamada Estados Unidos do Brasil. Deodoro foi eleito seu primeiro presidente.

Marechal Floriano Peixoto
Prudente José de Morais Barros
1891 - O autoritarismo de Deodoro da Fonseca provoca uma forte oposição dentro do Congresso. No início de novembro, ele dissolve o Congresso e assume o poder de forma ditatorial. Nesse mesmo mês, a marinha se revolta e o depõe. O vice-presidente Floriano Peixoto assume o seu lugar, mas os problemas continuam: o seu governo autoritário, foi contestado por revoltas militares e navais (1893-1894) e uma série de levantes no sul do Brasil. O paulista Prudente de Morais é eleito o primeiro presidente pelo voto direto no país. Ele instaurou um ciclo que entrou para a história como "a política do café-com-leite", na qual o poder era ocupado alternadamente por representantes de São Paulo e Minas Gerais.


Mietta Santiago, estudante mineira, 
na época com 20 anos de idade.

1928 - A estudante de direito Mietta Santiago descobre brecha na Constituição de 1891 e consegue ser a única mulher a votar (em si própria para uma vaga de deputada federal).

Washington Luís
Getúlio Vargas
1930/34 - Quando uma junta militar depôs o presidente Washington Luís e empossou o gaúcho Getúlio Vargas no poder, o brasileiro já havia participado de nove eleições presidenciais consecutivas. Foi um dos mais longos períodos de vida democrática no país em todos os tempos.
- Revolução, constituinte, novo código. Voto passa a ser secreto. Institui-se a Justiça Eleitoral. Mulheres ganham direito (mas não dever) de votar.

1937/45 - Estado Novo. Suspensão das eleições por 8 anos.

2ª Fase - 1937 a 1964

1937 - Getúlio Vargas promove um golpe militar e institui o Estado Novo, uma ditadura que se prolongou até 1945. Nos oito anos do Estado Novo, o brasileiro não foi às urnas.

Presidente do Supremo Tribunal Federal
José Linhares - 1945
Eurico Gaspar Dutra
1945 - Temerosos de um novo golpe, os chefes militares destituem Vargas do poder em outubro de 1945 e entregam a presidência ao presidente do Supremo Tribunal, José Linhares. Nas eleições de dezembro, o general Dutra é eleito presidente. Os parlamentares formam uma Assembléia Constituinte e elaboram a Constituição de 1946.

1954 - Getúlio Vargas comete suicídio no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Juscelino Kubitscheck
1955 - Juscelino Kubitscheck é eleito presidente, tendo como vice o petebista João Goulart, conhecido como Jango.

1958 - Cédula única oficial é usada pela primeira vez.

Jânio Quadros
1960 - Jânio Quadros, apoiado pela UDN, é eleito presidente, sendo João Goulart o seu vice.

João Goulart 
1961 - Com a renúncia de Jânio, sete meses depois de sua posse, João Goulart assume a presidência.

1964 - Jango governa sob regime parlamentarista por 30 meses, até ser deposto pelo militar em 1º de abril de 1964.
- Iniciava-se ali um longo período em que os brasileiros seriam impedidos de eleger diretamente o presidente da República - a Ditadura Militar.

3ª Fase - 1964 a 1989

1964 - Inicia-se um longo período em que o brasileiro estaria alijado de escolher pelo voto direto o presidente da República.
- Suspensas as eleições para outros cargos majoritários (governador, prefeito e senador).
- Partidos políticos foram extintos pelo governo. Em seu lugar, surgiram duas organizações partidárias: ARENA E MDB, que aglutinavam , respectivamente, as forças da situação e da oposição.

1978 - O pleito desse ano é marcado por mais um casuísmo do governo. Apenas um senador foi eleito pelo voto do eleitor - o outro foi escolhido indiretamente.

1979 - O governo extinguiu o bipartidarismo. A ARENA converteu-se no Partido Democrático Social (PDS), e o MDB estilhaçou-se em cinco novas agremiações: Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Popular (PP).

1982 - O primeiro pleito pós-64, com multipartidarismo, foi equilibrado. O período autoritário estava chegando ao fim.

1984 - O Brasil vive uma das mais emocionadas campanhas populares de todos os tempos: o movimento pelas Diretas Já. Milhares de pessoas participam de manifestações em todo país exigindo a volta das eleições diretas para presidente. Apesar da pressão popular, a emenda das diretas foi rejeitada pela Câmara dos Deputados.

Tancredo Neves
José Sarney
1985 - Tancredo Neves é eleito presidente da República, por meio do Colégio Eleitoral, inaugurando um período que passaria a ser conhecido como Nova República.
Com a morte de Tancredo, o país passou a ser governado pelo seu vice, o maranhense José Sarney. Em novembro, foram realizadas eleições para prefeito das capitais, pleito em que os analfabetos conquistaram o direito ao voto.

1988 - Nova Constituição torna facultativo o voto analfabeto e o de 16 a 18 anos.

1989 - O brasileiro volta a escolher pelo voto direto o presidente da República.

4ª Fase - 1989 a 2006

Fernando Collor De Mello
1989 - As eleições são realizadas sob grande mobilização popular, pela primeira vez em dois turnos.
- No segundo turno, Fernando Collor de Mello vence com pouco mais de 35 milhões de votos, o equivalente a 53% do total.

Pedro Collor De Mello
Paulo César Farias
1992 - Em 25 de abril, Pedro Collor, irmão do presidente, dá entrevista à imprensa. Nela fala sobre o "esquema PC" de tráfico de influência e irregularidades financeiras, organizado pelo empresário Paulo César Farias, amigo de Fernando Collor e tesoureiro de sua campanha eleitoral. Em 26 de maio, o Congresso Nacional instala uma CPI.

Itamar Franco
- Depois de um processo de comprovação das acusações e da mobilização da sociedade, o Congresso Nacional vota o Impeachment presidencial. No dia 2 de outubro, Collor é afastado e Itamar Franco assume interinamente.
- Durante a sessão de julgamento do Senado, Collor renuncia. Mesmo assim, o Senado prossegue e, no dia seguinte, ele tem seus direitos políticos cassados por oito anos.

Fernando Henrique Cardoso
1994 - As eleições aconteceram na euforia do Plano Real, o plano de estabilização econômica lançado poucos meses antes do pleito para combater à inflação. O candidato vitorioso foi o governista Fernando Henrique Cardoso.

Urna eletrônica
1996 - A novidade das eleições municipais foi a utilização, pela primeira vez, da urna eletrônica.

1998 - A novidade foi a possibilidade da reeleição. O então presidente FHC, concorrendo por uma ampla frente partidária encabeçada pelo PSDB e com apoio do PFL, PTB, PPB e PSD, vence mais uma vez.

2000 - Todos votam em urna eletrônica.

Luiz Inácio Lula Da Silva
2002 - O Brasil volta às urnas. Mais de 125 milhões de eleitores estavam aptos a votar. Após três derrotas e oito anos de oposição quase sistemática a Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), chega à Presidência da República, vencendo o economista José Serra, no segundo turno, realizado no dia 27 de outubro, com cerca de 53 milhões de votos (61% dos votos válidos).

2003 - Lula toma posse no dia 1º de janeiro. A cerimônia reuniu, pela primeira vez na história do país, uma multidão de 150 mil pessoas em Brasília.

José Dirceu
Antonio Palocci
2005 - Parlamentares são envolvidos em escândalos e CPI's são instaladas para apurar denúncias (CPI dos Correios, Bingos e Compra de Votos, entre outras). PT é acusado de fazer uso de "caixa dois" em campanha de Lula, em 2002. Caem homens de confiança do presidente Lula, como José Dirceu, então ministro da Casa Civil. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, é envolvido em caso de corrupção.

2006 - Operação Sanguessuga da Polícia Federal, constata envolvimento de parlamentares em fraudes de licitações para compras de ambulâncias, envolvendo a empresa Planam.
- Lula concorre à reeleição. Os demais candidatos são: Geraldo Alckmin (PSDB), Heloísa Helena (PSOL), Cristovam Buarque (PDT), Luciano Bivar (PSL), José Maria Eymael (PSDC), Ana Maria Rangel (PRP) e Rui Costa Pimenta (PCO).
- Governo Lula, já abalado pelos escândalos de 2005, continua em crise. O último escândalo envolvendo o presidente e membros do PT diz respeito a compra de dossiê contra tucanos, supostamente envolvidos em máfia das ambulâncias.
- Pleito é marcado para 1º de outubro.

Fonte/texto: Jornal Folha do Litoral - Paranaguá - Paraná - Brasil
Imagens: Internet
Página 5: Política
Data do Jornal: Terça-feira, 26 de setembro de 2006.
____________________________________________
__________________________________
________________________


Ruth Cardoso

Homenagem especial à sra. Ruth Cardoso 
A única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões a emitir.

24 de junho de 2008, São Paulo, São Paulo, Brasil.
Morreu na noite de terça, 24 de junho de 2008, aos 77 anos, a ex-primeira-dama e antropóloga Ruth Cardoso. 
A causa da morte, segundo seu cardiologista Arthur Beltrame, foi um infarto fulminante.

RUTH CARDOSO: UM TRIBUTO 
O trabalho de política acadêmica e pública da sra. Ruth Cardoso, ex-primeira-dama do Brasil, tocou as vidas de muitos. Além de suas contribuições acadêmicas como pesquisadora e professora de antropologia e sociologia, Ruth Cardoso inspirou muitos no Brasil para colocar suas ideias em prática. As principais inovações políticas no Brasil podem ser rastreadas até a Ruth Cardoso: o papel crescente das mulheres na sociedade brasileira é um exemplo, assim como o desenvolvimento de formas modernas de gastos públicos, incluindo Comunidade Solidária, um precursor do agora renomado Programa Bolsa Família do Brasil . Este é o primeiro de uma série de três conferências que irá honrar e levar adiante a obra de Dona Ruth. 
Organizado em colaboração com: Faculdades de Ciências Sociais, Universidade de São Paulo, Fundação Getúlio Vargas (São Paulo) e Instituto Fernando Henrique Cardoso.
________________________________________________
_______________________________________
____________________________


Pelo colunista Augusto Nunes
Ruth Cardoso
Dilma Rousseff





Ruth Cardoso vs. Dilma Rousseff: 400 a 0


Ruth Cardoso foi a prova definitiva de que milagres civilizatórios ocorrem mesmo nos grotões do planeta. A discreta e talentosa paulista de Araraquara, que se casou muito jovem com o sociólogo carioca Fernando Henrique Cardoso, seria a única primeira-dama a desembarcar em Brasília com profissão definida, luz própria e opiniões a emitir ─ sempre com autonomia intelectual e, se necessário, elegante contundência. Durante oito anos, o brilho da mulher que sabia o que dizia somou-se à luminosidade da antropóloga respeitada em muitos idiomas para clarear o coração do poder.

No fim de 1994, por não imaginarem com quem logo lidariam, muitos jornalistas ouviram com ceticismo a justificativa apresentada pelo presidente eleito para a viagem à Rússia: “Vou como acompanhante da Ruth”. Ela participaria como palestrante de um congresso de antropologia promovido em Moscou, ele aproveitaria para descansar alguns dias. Nenhum repórter cuidou de conferir o desempenho da palestrante. Perderam todos a chance de descobrir que Ruth era muito mais que a mulher do n° 1.

A melhor e mais brilhante das primeiras-damas abdicou do título já no dia da posse do marido. “Isso é uma caricatura do original americano, esse cargo não existe”, resumiu numa entrevista. Se não existia, Ruth inventou-o. Sem pompas nem fitas, longe de fanfarras e rojões, montou o impressionante conjunto de ações enfeixadas no programa Comunidade Solidária. Em dezembro de 2002, os projetos em execução mobilizavam 135 mil alfabetizadores, 17 mil universitários e professores, 2.500 associações comunitárias, 300 universidades e 45 centros de voluntariado.

Acabou simbolicamente promovida a primeira-dama da República no dia da morte que pareceria prematura ainda que tivesse mais de 100 anos. A cerimônia do adeus comprovou que o Brasil se despedia, comovido, de alguém que o fizera parecer menos primitivo, mais respirável, menos boçal. E que merecia ter morrido sem conhecer a fábrica de dossiês cafajestes da Casa Civil chefiada por Dilma Rousseff.

Instruída para livrar o governo da enrascada em que se metera com a gastança dos cartões corporativos, Dilma produziu um papelório abjeto que tentava reduzir Fernando Henrique e Ruth Cardoso a perdulários incuráveis, uma dupla decidida a desperdiçar o dinheiro da nação em vinhos caros e futilidades gastronômicas. Dilma foi a primeira a agredir uma mulher gentil, suave, e também por isso tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.

A fraude que virou candidata à presidência anda propondo que o país compare Fernando Henrique a Lula. “O Lula ganha de 400 a 0″, delira. Qualquer partido mais competente e menos poltrão teria topado há muito tempo esse confronto entre a seriedade e a bravata, entre o conhecimento e a ignorância, entre o moderno e o antigo, entre o real e o imaginário. Como o PSDB prefere capitular sem combate, poderia ao menos sugerir que se compare Dilma Rousseff a Ruth Cardoso. A Mãe do PAC talvez aprenda como é perder por um placar de 400 a zero.

Fonte: 26/11/2009 - às 21:09 - Direto ao Ponto - Revista Veja. Colunista: Augusto Nunes.

Augusto Nunes















_________________________________________________
________________________________________
_________________________


Algumas imagens interessantes...

Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil

Primeiro título eleitoral 
- 1881 -



Rota seguida por Cabral para a Índia em 1500 (vermelho) e a rota de retorno (azul).


Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina
Dom Pedro I e a corôa imperial
Morte de Dom Pedro II
Getúlio Vargas
Dom Pedro II
Tancredo Neves e Ulysses Guimarães

Presidentes do Brasil - 1934 a 15.03.1974
Presidentes do Brasil - 1974 a 2010


Presidentes do Brasil - 1889 a 2014

Getúlio Dornelles Vargas



Fatos marcantes 1820 a 2000




___________________________________________
_______________________________
____________________